Sabes,
Eu costumo dizer que não gosto de ter medo de nada (já viste(?) descobri os acentos, no meu teclado, estavam escondidos, mas com a ajuda do Jorge e do João, consegui fazê-los sair cá para fora). Mas tenho medo, é claro! Acho até que os meus medos são parecidos com os teus. Tenho medo, por exemplo, das osgas, que são uns bichos compridos, como as lagartixas, e que andam com umas ventosas nos dedos, pelas paredes e tectos das casas. Mas às vezes caiem cá abaixo. E eu, quando imagino que elas caiem, vejo-as sempre a escorregar pelas minhas costas, por dentro da roupa, o que, cá no meu entender é muito pior do que se caíssem na minha frente, mesmo até nas maminhas, suas grandes atrevidas!
E também tenho medo do escuro que está dentro dos armários, quando eles estão de portas abertas! Nunca fui capaz de perceber ou imaginar o que pode sair de dentro de um armário, à noite, quando ele tem as portas abertas, mas lá que tenho medo, tenho! Se calhar o medo é isso mesmo, não se saber muito bem do que se tem medo (!)(?).
Mas, por causa deste futuro onde agora vivo, ganhei um medo novo, que nunca tinha sentido antes e que umas senhoras - todas senhoras - me ofereceram de presente antes de eu vir para o futuro. É o medo dos mosquitos. Os mosquitos são como as osgas, andam à noite nos tectos e paredes das casas, só com a diferença de que não caiem cá abaixo, a não ser quando os matamos, porque voam, o que as osgas ainda não conseguem fazer. Os mosquitos voam também de dia, mas só à noite é que nós ouvimos o seu voo, quando estamos em silêncio, quase a adormecer. O som que ouvimos parece o de uma faca fininha a serrar o ar, também fininho. São eles a avisar que gostam do cheiro e do calor do nosso corpo e que querem um bocadinho do nosso sangue, que tem um petisco que se chama zinco, para eles jantarem. Um dia hei-de explicar-te melhor de que são feitos estes seres complexos e minúsculos, em tantas coisas parecidos conosco.
Então, pensarás tu, porque raio é que eu hei-de ter medo de bichinhos tão pequenidos e que sabem fazer tão bem uma coisa que eu ainda não sei mas que hei-de um dia aprender, que é voar sem precisar de estar preocupada com o preço do barril do petróleo? É que aquelas senhoras - muito senhoras - disseram-me que eu podia morrer se eles me picassem, vê tu, estes mosquitos danados do futuro, como são maus e venenosos, a acreditarmos naquelas senhoras. E como elas tinham batas brancas, que é uma vestimenta que dá confiança às opiniões de quem as transmite, eu finjo acreditar naquelas senhoras, talvez só para ter mais um medo para me acompanhar. Por isso, antes de sair do meu quarto, besunto-me com uma coisa mal cheirosa, que os mosquitos detestam e tomo uns comprimidos que os assustam e me estão a matar devagar, para não se parecerem com os mosquitos. Também durmo debaixo de uma linda rede branca, onde eles não querem entrar, por, ao verem um céu tão branco sobre a cama, pensarem que ali mora a princesa dos mosquitos que, é claro, não pode ser picada, senão nunca irá reinar nem fazer o bem, por cem longos anos, até que venha o príncipe das osgas e lhe dê um beijo baboso e a leve, para serem estranhamente felizes para sempre.
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