sexta-feira, 20 de junho de 2008

Itaca

Os mosquitos não apareceram e a osga pequenina que passeava ao luar, não gostou da luz por baixo da porta, por isso não entrou. Como o armário se queixa quando as portas se fecham ou se abrem, não tenho dúvidas em dizer que de lá não saiu qualquer coisa negra e disforme, de que nem sei o nome. Têm sido noites felizes, durante as quais me sinto uma princesa dos mosquitos, muito pálida e coberta por um véu de noiva preso ao sonho e preso ao tecto.

 

De manhãzinha, aqui neste futuro, pode-se tomar o pequeno almoço com a cara virada para sol que nasce, na companhia de três papagaios e dois cães estremunhados.

 

Cheiram-se os cheiros que uma vez vi descritos num poema  -  talvez o poema da minha vida  -  chamado Ítaca. Foi feito por um homem que tinha dúvidas e um nome retorcido, como por exemplo Konstandino Kavafis, que era, realmente, imagina, o nome dele.

 

Come-se pão, leite, papaia fresca e côco, que se apanha, prestes a cair, do coqueiro mesmo ao lado.

 

Quem disse que aqui não há futuro, esqueceu-se de ler aquele poema, por isso aqui te envio um bocadinho dele, e sei que vais gostar, quando puderes compreendê-lo:

 

Traz Itaca sempre no pensamento,
porque chegar a ela é o teu destino.
Não apresses a viagem,
melhor é que ela dure muitos anos
e velha sejas quando a ela chegues,
e rica, com tudo o que aprendeste no caminho
sem de Itaca esperares a recompensa.

A Itaca deves a maravilhosa viagem.
Sem ela nunca farias o caminho
mas agora nada tem para te oferecer.
Se achares que é pobre, Itaca não te enganou.
Hoje que és sábia e em experiências rica,
Já sabes bem o que Itaca significa.

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