Minha princesa,
Aos cinquenta e quarto anos percebi que, afinal, nunca tinha viajado de aviao, ao contrario do que pensava ate agora. Falo de viajar completamente sozinha, num mundo inospito e funcional, onde nos assemelhamos a um carrinho metalico, que nao tem meios de se queixar, ainda que lhe facam muitas mossas.
Nesta ultima viagem de aviao, caminhei quilometros por corredores que estao fora e dentro da minha paciencia. Dormi duas horas, acordada ha seis, ainda so me encontrei em Londres, a espera que um aviao, povoado por um linguarejar estranho e gutural a espera que o aviao levantasse voo para uma cidade onde as arvores ja foram ha muito tempo substituidas por predios que tocam os pes de deus. E as macas vermelhas, as laranjas amarelas, as peras verdes, foram substituidas por luzes estridentes que nos justificam na cabeca a necessidade de comprar um sonho qualquer, que, bem vistas as coisas, nao o ‘e.
Lembro-me da tua cara branca, das duas rosas que a decoram, das palavras claras que aplicas como se fosses um adulto. Lembro-me do teu corpo franzino e esquivo, da tua natural desconfianca dos parentes a mais, que o sangue nao explica. Vejo-te completa e sei que tens razao. E sei que tenho inveja de nao ser pequenina como tu, para poder pedir a alguem que me de a mao ou me leve ao colo, mais todos os objectos pesados que carrego e carregarei as costas ate ao fim desta viagem.
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