sexta-feira, 4 de julho de 2008

Enquanto dormes

 

Ontem resolvi pôr-me a escrever coisas confusas, difíceis de entender. Talvez tenha tentado imitar as pessoas daqui e isso não é fácil. Era mais ou menos assimÇ

Enquanto tu ainda dormes eu já almoço no futuro, um peixe a que chamam perca, acompanhado de feijões cozidos, muito duros, que estalam na boca e na minha cabeça, que os ouve, estranhando o som. Bebo uma cerveja chamada VB, que é produzida na Austrália, um País muito grande, muito, mas muito maior que Portugal, mas onde as florestas também ardem quase todas no Verão e no Inverno. Por isso é um País parecido, afinal, com Portugal. A Austrália gosta mais da terra onde agora vivo, do que eu gosto de ervilhas com ovos. Sabes porquê? Porque pode vender-lhe cerveja e comprar-lhe petróleo. Não sei se sabes, mas, apesar de tudo, a cerveja é bem mais cara que o petróleo...

A cerveja deixa-me mais desperta e ponho-me a ouvir as conversas do restaurante. Fala-se aqui quase todas as línguas. Há malais de todos os Países  -  malais são estrangeiros, cá na terra  -  a maior parte deles com olhos brancos, como diz o meu amigo Zé, que vende pulseiras, põe goma no cabelo e amanhã vai à escola, sempre amanhã é que ele vai à escola, nunca hoje.

Aqui há tempos conheci o hotel onde todos se encontram para conversar, que é um lugar que eu sonhei quando me punha a imaginar os sítios por onde o meu pai andaria, quando eu era tão pequenida como tu. E sei onde se vendem telemóveis a 30 dólares, onde se vendem vegetais apanhados há uma semana atrás, conheço os esgotos ao ar livre, os carros amontoados, os computadores, as impressoras, os funcionários, todos bem armazenados e muitos deles inúteis. Entretanto, as pessoas com os olhos pretos, raiados de sangue, recebem um salário de 90, 100 ou 200 dolares por mês, os que têm emprego e sabem falar várias línguas, menos o português.

Há uma explicação simples, penso eu para esse facto. Não falam português porque não precisam, falam as outras línguas porque precisam, será?

Gostava que me disses o que pensas sobre isto, minha princesa.

 

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